Transtornos alimentares: quando a imagem corporal se torna caso médico

3 anos atrás  Por  Equipe Natue     Sem Comentários

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A vontade de ter o corpo perfeito dominava os pensamentos de Maíra (nome fictício). A fase da adolescência não estava fácil e o constante medo de engordar apenas se agravava com o bullying na escola. Para alcançar seu ideal de beleza e fugir das agressões, ela estipulou metas: começou diminuindo a quantidade de comida, mas logo passou a induzir o vômito após as refeições. Em poucas semanas, os sinais de distúrbio alimentar se agravaram. Nesta época, ela tinha apenas 12 anos.

Motivadas por padrões estéticos impostos pela mídia e o mercado de moda, cada vez mais pessoas desenvolvem problemas relacionados à distorção da própria imagem, inclusive pela ideia fantasiosa de que poderão melhorar sua autoestima. “O corpo tornou-se um objeto de consumo que deve ser ideal, saudável, fitness, jovem, magro e esteticamente belo dentro dos padrões. Nesse modelo de perfeição, tudo aquilo que foge ao padrão é visto como sinal de fracasso, o que pode aumentar o risco de distúrbios de IC [distúrbios de imagem corporal] e de transtorno alimentar”, aponta Aline Cavalcante de Souza, nutricionista aprimorada em Transtornos Alimentares pelo Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (Ipq-HC-FMUSP).

Após passar mal com constantes desmaios, tonturas, dores de cabeça e perder quase 15 quilos em menos de três meses, a psicóloga da escola em que Maíra estudava alertou sua família sobre a situação. “Cheguei a pesar 49 quilos com quase 1,75 de altura. Desde então, passei por internações, tratamentos e também pela automutilação, um jeito que arrumei para descontar a raiva que sentia por tudo o que estava acontecendo”, conta a jovem, hoje com 20 anos.

Segundo Alexandre Pinto de Azevedo, médico psiquiatra, assistente do Programa de Transtornos Alimentares (Ambulim) e coordenador do Grupo de Estudos em Comer Compulsivo e Obesidade (Grecco) do Instituto de Psiquiatria do HC-FMUSP, os transtornos ou distúrbios alimentares são considerados patologias psiquiátricas. “São caracterizados por comportamentos inadequados, neste caso, alimentares, determinados por uma má percepção da própria imagem corporal associada ao pavor de ganhar peso ou pela necessidade de perder peso. A percepção de sua imagem corporal está distorcida, independente das evidências concretas de que o indivíduo não está ‘gordo’”, explica.

Diagnosticada com anorexia nervosa, Maíra foi forçada a se tratar. Começou com atendimento psicológico e psiquiátrico, e depois passou por um nutricionista. Também participou de grupos de apoio, em que conheceu várias meninas com o mesmo problema. Um tempo depois desenvolveu bulimia e ainda hoje precisa passar por consultas. “Não tem sido fácil, mas também não é impossível. Cada dia é uma luta, há momentos em que estou bem e outros em que tenho recaídas severas, mas com a ajuda dos médicos consigo manter o controle. Tenho o distúrbio há nove anos e o tratamento já dura seis”, conta.

Anorexia e bulimia

A anorexia nervosa e a bulimia nervosa são os dois principais transtornos alimentares caracterizados pela distorção da imagem corporal. O paciente anoréxico apresenta peso abaixo do esperado para a sua altura e sexo e todo seu comportamento alimentar é inapropriado e voltado para a perda de peso. Já o bulímico encontra-se com o peso normal ou acima e necessariamente apresenta episódios de descontrole alimentar [compulsão alimentar] e todos os comportamentos inadequados compensatórios, como vômitos provocados, uso de laxantes ou mesmo prática excessiva de exercícios.

De acordo com Azevedo, é mais difícil tratar um portador de transtorno alimentar que faz o tratamento forçado, principalmente porque muitos pacientes acreditam que essa é apenas ‘uma forma de viver’. “A ausência da aceitação de que são portadores de uma doença limita a ação terapêutica, embora faça parte do processo de tratamento. Uma vez ultrapassada essa fase, a colaboração do paciente em ser o mais sincero possível no relato do seu comportamento é o fator mais importante, pois só assim poderemos identificar as inadequações e propor mudanças”, ressalta o médico.

Para evitar o excesso de peso ou a magreza excessiva, é fundamental manter uma alimentação saudável. No entanto, isso envolve a compreensão do papel dos alimentos não apenas na esfera biológica, por termos necessidade de nutrientes, mas também nos aspectos emocional e sociocultural exercidos pela alimentação, em que a ingestão de alimentos depende do local, contexto, humor e até companhia. “É importante respeitar a fome, a vontade de comer, ser capaz de selecionar os alimentos – recusando ou aceitando quando for coerente –, planejar as refeições, comer em locais calmos, desfrutar plenamente o momento das refeições, conhecer alimentos novos e prestar atenção aos sinais de fome, apetite e saciedade”, esclarece a nutricionista Aline.

Ficar atento a esses fatores ajuda a evitar o desenvolvimento de transtornos alimentares. Além da preocupação de ganhar e perder peso, há outras desordens ligadas às dietas e à forma como o próprio corpo é visto. Conheça algumas:

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